Single/Editorial: Nós Ainda Estamos Aqui

Single/Editorial sobre o resultado das Eleições 2018, escrito por Victor Camilo.




      Manifestação "Ele Não", contra a candidatura de Jair Bolsonaro, São Paulo, Setembro/2018. Foto: Miguel Schincariol - AFP.

Eu nunca me orgulhei tanto de ser artista por formação, educador e comunicador por ofício, e entusiasta da ciência e do conhecimento. Eu nunca me orgulhei tanto dos meus amigos e amigas mulheres, LGBTs e nordestinos.

Eu nunca me orgulhei tanto de ser filho de uma mulher negra, com quem sempre busquei me assemelhar, apesar da minha pele ter por acaso saído mais clara. Eu nunca me orgulhei tanto de ser neto de um homem que, apesar de ter sido policial ao longo dos anos da ditadura, sempre votou contra a Arena.

Não dá para dizer que esse seja um dia feliz, para mim ou para a maioria dos que andam ao meu lado. Nós observamos de longe, identificamos o risco, nos posicionamos contra, e lutamos. Fomos às ruas, escrevemos, falamos, cantamos, votamos. E, no entanto, fomos derrotados, dentro das regras do jogo.

O próximo presidente da nação brasileira será um representante de muito do que repudiamos, de muito do que tememos, colocando em risco a integridade de muito do que acreditamos e defendemos. Perdemos essa batalha.

Duas coisas, no entanto, me fizeram acordar nessa manhã com uma disposição que eu já não sentia em mim mesmo há muito tempo.

A primeira foi, uma vez encerrado o processo eleitoral, finalmente conseguir começar a olhar para trás. Começo a entender que, em meio a toda a angústia, turbulência, lágrimas e carnificina verbal, mergulhamos, eu e muitos de vocês, em nossa própria memória coletiva.

Tive a oportunidade de finalmente sentir na pele o que sempre ouvi em sala de aula, pegando a história desse país pelas mãos, e começando a entender de fato quais são as minhas coordenadas nela. Hoje um orgulhoso membro da oposição ao futuro governo, me sinto, mais do que nunca, um cidadão desse país.

A segunda, decorrente da primeira, é o entendimento, construído a duras penas, de que, como disse Pepe Mujica, não existe triunfo definitivo, assim como não existe derrota definitiva.

Nós não pegamos fogo com a derrota nas urnas, e não viraremos pó com a subida de nosso adversário na rampa do Planalto. E talvez essa seja a principal vantagem de estarmos em um mundo real, e não em um fictício. 

Ao longo do caminho, fui finalmente entendendo que, mesmo que fôssemos derrotados eleitoralmente, todas as manifestações, os gritos, os cantos, eram demarcações de posição, cuja importância iria, e irá, muito além das urnas.

Ao longo dessa campanha, demos inúmeras declarações de existência, que eleição alguma pode apagar. E esse é o ponto principal.

Se tememos as tendências autoritárias do presidente eleito, o fato é que nós ainda estamos aqui, com condições de lutar para que não se concretizem. Se tememos seu discurso violento e segregacionista, o fato é que nós ainda estamos aqui, em condições de provar que ele não funciona.

Se tememos pelo futuro da nossa democracia, o fato é que ainda estamos aqui, somos sócios dela, e ela não se encerra sem o nosso aval.

Da minha parte, agora se inicia um período de respeito institucional ao governo legitimamente eleito, e de muita, muita cobrança e observação.

Aos que votaram e torceram pelo próximo presidente, eu espero de vocês o mínimo de seriedade e senso crítico na observação daquele a quem entregaram o poder. 

Aos que, derrotados, estejam se sentindo expostos, fragilizados e oprimidos, me chamem, contem comigo. Eu já chorei tudo que tinha que chorar, e estou pronto para (r)existir ao lado de todos vocês.


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Victor Camilo

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